Tradições de comunidade no Norte de Minas chegam à Academia pelo olhar de Geraizeiro

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Agrônomo nascido na comunidade tradicional apresentou dissertação de mestrado sobre a agrobiodiversidade e a cultura alimentar geraizeira

As complexas interações entre sistemas de cultivo e manejo de paisagens e os saberes e práticas alimentares da comunidade de Pau D’arco, no Norte de Minas Gerais, foram apresentadas pelo agrônomo João Chiles no último dia 26 no curso de mestrado em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais, do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. 

Foi a primeira vez que a comunidade de Pau D’arco, localizada nos município de Montezuma e Santo Antônio do Retiro, foi retratada em uma dissertação acadêmica. O Rio Pardo nasce na comunidade e divide seu território geograficamente ao meio. Atualmente, a comunidade reúne 128 famílias e busca nas atividades da agricultura familiar a base de sua economia e alimentação. Do extrativismo retira uma grande renda da venda do pequi, do óleo do pequi e do araticum. Das roças colhe feijão, arroz vermelho, arroz branco, cana, mandioca e muitas verduras, além de alho e cebola.

Na dissertação de mestrado intitulada "Dicomer, dibeber ou coisa de velho? Agrobiodiversidade e a cultura alimentar geraizeira na comunidade do Pau D'Arco", Chiles teve como objetivo caracterizar a agrobiodiversidade, os saberes e práticas alimentares tradicionais da comunidade tradicional, levando em consideração os fatores e as influências externas e internas que vêm atuando na garantia da segurança alimentar e nutricional da comunidade.

Dissertação "Dicomer, dibeber ou coisa de velho? Agrobiodiversidade e a cultura alimentar geraizeira na comunidade do Pau D'Arco"

Dissertação "Dicomer, dibeber ou coisa de velho? Agrobiodiversidade e a cultura alimentar geraizeira na comunidade do Pau D'Arco"



Dissertação "Dicomer, dibeber ou coisa de velho? Agrobiodiversidade e a cultura alimentar geraizeira na comunidade do Pau D'Arco" © Arquivo pessoal

Demonstrou-se, na apresentação da dissertação, que os Geraizeiros trazem no dicomer as abordagens dos gostos, hábitos, reciprocidades, identidades e práticas. Na relação entre natureza e cultura, evidencia-se o comer não apenas biológico, mas ligado a funções simbólicas e sociais: a reciprocidade na alimentação, talvez uma das características culturais mais presentes no local, reforça a identidade de seu sistema agroalimentar.

“Foi com grande orgulho e felicidade que fiz com os agricultores essa pesquisa na comunidade. Talvez foi meu maior ato como agrônomo, poder colaborar para levar as práticas e saberes tradicionais dos Geraizeiros,  muitas vezes relegados a um segundo plano na ciência, para os bancos da universidade”, contou com orgulho o Geraizeiro Chiles. Ele nasceu na comunidade e, após cursar Engenharia Agronômica na Universidade de São Paulo, retornou à comunidade, onde atuou como professor, coordenador do projetos de agricultura familiar e diretor da associação local.

A comunidade, apesar de acessar e consumir alguns tipos de alimentos industrializados, ainda afirma sua preferência por alimentos locais considerados “mais naturais”, resignificando saberes tradicionais associados às preparações culinárias e às funções biológicas e ritualísticas em um mundo em transição. João Chiles também espera que sua dissertação tenha um poder transformador de forma a impactar politicamente não apenas as famílias da comunidade, mas também as muitas comunidades rurais, e as instituições locais de governo e de pesquisa. “As comunidades geraizeiras precisam despertar para o valor que ainda tem sua alimentação e seus conhecimentos e saberes agronômicos para o desenvolvimento sustentável”, defendeu.

Projeto Bem Diverso no Norte de Minas

A importância das tradições das comunidades geraizeiras para a sustentabilidade da biodiversidade local também é um dos focos do Projeto Bem Diverso. As comunidades ao Norte de Minas Gerais compõem um dos Territórios da Cidadania (TC), no qual o Projeto atua, o de Alto Rio Pardo. Numa área de transição entre os biomas Cerrado e Caatinga, o TC Alto Rio Pardo abrange uma região de 16.502,30 Km² envolvendo 15 municípios mineiros: Vargem Grande do Rio Pardo, Curral de Dentro, Fruta de Leite, Indaiabira, Rio Pardo de Minas, Santa Cruz de Salinas, Santo Antônio do Retiro, Berizal, Montezuma, Ninheira, Novorizonte, Rubelita, Salinas, São João do Paraíso e Taiobeiras. Sua população está estimada em cerca de 192 mil habitantes, dos quais 86 mil vivem na área rural.

O Alto Rio Pardo é lar de uma grande diversidade de comunidades tradicionais que habitam o território há centenas de anos, praticando técnicas tradicionais de manejo e uso sustentável da biodiversidade. Dentre os grupos principais estão os Geraizeiros e os Quilombolas. Os Geraizeiros habitam os chamados “Gerais”, região de chapadas do Cerrado norte-mineiro que cobre boa parte do Território Alto Rio Pardo.

Esse grupo tem forte ligação com a terra, manejando-a há séculos no extrativismo de produtos do Cerrado e na criação à solta de animais nas terras comunais das chapadas e suas encostas e no estabelecimento de roças, quintais e currais nas áreas de baixadas onde constroem suas moradas. Essas populações são caracterizadas pela estreita relação de parentesco e colaboração mútua entre seus povoados realizando trocas de plantas e de conhecimentos associados à natureza e a vida geraizeira.

Lara Aliano/ Agência MOC