Mecanismos de rastreabilidade na Amazônia fortalecem produção sustentável pelas comunidades tradicionais

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Além da importância na segurança alimentar da população da região, o extrativismo dos frutos também é uma das principais atividades geradoras de renda

A cadeia de valor de frutos como o açaí, a castanha-do-brasil e a andiroba foi um dos temas do Seminário “Diferenciação e rastreabilidade para produtos da sociobiodiversidade da Amazônia”, realizado nos dias 12 e 13 de novembro em Brasília. Os frutos fazem parte da alimentação diária e são importantes para a geração de renda  de famílias da Ilha do Marajó , no Pará, e do Acre, territórios de atuação do Projeto Bem Diverso.

“Os produtos da sociobiodiversidade tem uma importância vital para o  modo e a qualidade de vida das populações locais. Os frutos tem ganhado repercussão nacional e internacional de mercado, gerando impactos diretos na  vida dos produtores familiares”, pontuou a pesquisadora da Embrapa-Amapá Ana Euler.

Considerando o potencial da atividade e o alto consumo de produtos derivados desses frutos da Amazônia, a adoção de boas práticas é o ponto focal de atuação do Bem Diverso no território. A conservação da biodiversidade brasileira em paisagens de múltiplos usos, por meio de sistemas agroflorestais, busca assegurar os modos de vida das comunidades tradicionais e agricultores familiares, gerando renda e melhorando a qualidade de vida.

Da andiroba é extraído óleo das sementes, usado há séculos pelas populações amazônicas, especialmente para fins medicinais. Nos últimos anos, esse produto vem sendo explorado principalmente pela indústria de fármacos e cosméticos. Conhecida como Rainha da Floresta Amazônica, a majestosa castanheira produz a castanha-do-brasil, uma semente muito saborosa de alto valor nutritivo muito utilizadas culinária. A castanha pode ser consumida in natura ou assada, sendo muito apreciada como petisco, além de servir como ingrediente para doces, farinhas, bolos, pães. Por seu intenso poder hidratante, emoliente e esfoliante, a indústria fármaco-cosmética utiliza a castanha-do-brasil na fabricação de hidratantes, xampus, sabonetes finos, batons.

Seminário Diferenciação e rastreabilidade para produtos da sociobiodiversidade da Amazônia

Seminário Diferenciação e rastreabilidade para produtos da sociobiodiversidade da Amazônia



Seminário Diferenciação e rastreabilidade para produtos da sociobiodiversidade da Amazônia © Lara Aliano, Agência MOC

Açaí: o ouro negro da Amazônia

Já o açaí é consumido, predominantemente, em polpa e sucos. A produção de açaí no Pará registra crescimento exponencial, tendo sido de 1,3 milhão de toneladas em 2018 ante 250 mil toneladas cinco anos antes. O estado é o maior produtor de açaí no País, sendo 85% da sua produção para consumo interno. A partir da grande busca pelo produto, houve um movimento de cultivo em monocultura da espécie, que se demonstra uma preocupação para o setor e representa uma situação de vulnerabilidade para a manutenção dos modos de vida das comunidades locais. 

Segundo o pesquisador da Embrapa-Pará José Antônio Leite, a diminuição da diversidade florestal a partir da monocultura do açaí implica a queda da biodiversidade das regiões de várzea e uma consequente perda da capacidade produtiva da palmeira do açaí por falta de nutrientes no solo.  “Desta forma, foi desenvolvido, em conjunto com os produtores, um processo de manejo de mínimo impacto ambiental que permite o aumento da produção de açaí”, explicou.  

O extrativista do município de Portel, comunidade Santo Ezequiel Moreno (PA), Teófilo da Serra Gomes é atuante no processo de preservação da biodiversidade pelo seu uso. “Na comunidade, a gente desenvolve o extrativismo do açaí e parcela de agricultura familiar. Junto à Embrapa, pelo Projeto Bem Diverso, estamos trabalhando com o manejo do açaí com mínimos impactos ambientais, o que me traz a certeza de que irá melhorar a rentabilidade na produção da comunidade”, defende.

A replicação de boas práticas para o fortalecimento do mercado dos frutos da Amazônia encontra parceria junto à Emater-Pará. “A grande adesão dos comunitários permite identificarmos alguns resultados como a segurança alimentar, aumento da produção e vendas. Outros pontos, no entanto, ainda devem avançar a partir dessas discussões”, declarou o supervisor Regional da Emater-Pará no Marajó, Alcir Borges, ao listar como objetivos buscados a ampliação da área manejada, agregação de valor aos produtos com retorno ao extrativista, certificação do processo de produção e aproximação do produtor com a indústria (evitando atravessadores).

O Seminário “Diferenciação e rastreabilidade para produtos da sociobiodiversidade da Amazônia” é uma iniciativa do projeto Mercados Verdes e Consumo Sustentável (MVCS), uma parceria da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e Desenvolvimento Agrário (SEAD) com o governo federal alemão por meio da cooperação técnica alemã (GIZ) e com o apoio do consórcio ECO Consult e IPAM Amazônia, da WWF-Brasil, Projeto Private Business Action for Biodiversity (PBAB – GIZ/MMA), Parceria para Conservação da Biodiversidade (ICMBIO/USAID/USFS), Projeto Bem Diverso (Embrapa/PNUD/GEF) e Instituto Terroá.

Lara Aliano, Agência MOC