Cafés especiais de Alto Rio Pardo trazem as tradições de comunidades mineiras para as xícaras

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Intercâmbio em São Gonçalo do Sapucaí proporciona troca de conhecimentos entre produtoras e produtores em busca de agregar valor ao café

O café quentinho em uma xícara não é apenas uma bebida aromática e saborosa que faz parte da rotina da maioria dos brasileiros. Os cafés produzidos no Território de Alto Rio Pardo, no norte de Minas Gerais, contribuem para a conservação da biodiversidade brasileira em paisagens de múltiplos usos por meio do manejo sustentável da sociobiodiversidade e de sistemas agroflorestais. É assim que os cafezais ajudam a assegurar os modos de vida das comunidades tradicionais Geraizeiras de agricultoras e agricultores familiares, gerando renda e melhorando a qualidade de vida.

Esse conhecimento tradicional e experiências na produção de café foram compartilhados em Intercâmbio realizado nos dias 7, 8 e 9 de agosto entre produtores de São Gonçalo do Sapucaí e de Alto Rio Pardo, na sede da Associação de Produtores do Alto da Serra (APAS), Minas Gerais. As atividades foram promovidas pelo Projeto Bem Diverso, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) e Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA), reunindo cerca de 20 produtoras e produtores  mineiros, que participaram de rodas de conversa, discutiram gargalos na produção e comercialização e conheceram boas práticas de plantio e colheita nas fazendas da comunidade do sul de Minas. As atividades ainda contaram com o apoio das entidades locais Cooperativa de Vereda Funda e Sindicato de Rio Pardo. 

Durante o intercâmbio também foi realizada uma oficina de classificação e preparo de amostras de café do Alto Rio Pardo, que resultou na seleção de amostras de cafés especiais da região do norte mineiro para participação no 15º Concurso de Qualidade dos Cafés de Minas Gerais 2018.

Recuperação das chácaras cafeeiras

O café foi introduzido no Alto Rio Pardo por muleiros vindos de São Paulo. Distinguem-se, principalmente, duas variedades cultivadas na região, ambas do tipo arábica: o café comum ou Mundo Novo Antigo (em sua maior parte) e o catuaí, mais recentemente cultivado. Singular, o modelo de produção se dá com o tradicional sombreamento da plantação em sistemas agroflorestais. Nesses sistemas, o cultivo de café via semente, estaca ou muda, consorcia-se com o de mandioca, banana e mudas ou sementes de ingazeiras e outras espécies arbóreas nativas do cerrado num espaçamento adequado à formação do sombreamento nos anos seguintes.

Este modelo, no entanto, foi fortemente desestruturado pelo avanço da monocultura de eucalipto nos últimos anos, resultando na pressão sobre os recursos naturais e afetando a qualidade e o modo de vida dos Geraizeiros. É neste contexto, que o Bem Diverso atua para o resgate das plantações de café sombreado como legado aos produtores das comunidades locais. A partir do Intercâmbio, os agricultores e agricultoras mais jovens e os de outras comunidades da região podem se apropriar da expertise na produção de café especial desenvolvida no sul de Minas e levá-las adiante. “É preciso aproveitar os conhecimentos de quem já trilhou um caminho bem-sucedido de construção desse conhecimento”, defendeu o pesquisador da Embrapa de Recursos Genéticos e Biotecnologia, Anderson Sevilha.

O trabalho para desenvolvimento dos cafés especiais agrega valor aos produtos da agrobiodiversidade local, trazendo o reconhecimento da cultura e dos modos de vida tradicionais dos agricultores e agricultoras. “O potencial do Território de Alto Rio Pardo e de seus municípios cafeeiros é notável. Está surgindo uma nova fronteira brasileira de cafés especiais, a partir da produção de agricultores familiares de forma agroecológica com atributos muitos interessantes e raros”, declarou o coordenador regional da Emater-MG, Sérgio Regina.

Ronaldo de Almeida do CAA destacou a importância dessa valorização do que já é tradicionalmente realizado pelas comunidades. "Não são os cafés que são especiais, mas sim as pessoas que os produzem. Esperamos que o café seja valorizado pela sua qualidade e sua história e para isso contamos com o apoio do Bem Diverso na abertura e fortalecimento desse mercado para mostrar o café e colocá-lo no mercado nacional e internacional”.

Critérios de definição do café especial

Durante a seleção de amostras de café para o 15º Concurso de Qualidade dos Cafés de Minas Gerais 2018 foram identificados cafés especiais a partir de uma escala desenvolvida nos Estados Unidos, que leva em consideração suas características sensoriais.

De acordo com a Metodologia de Avaliação Sensorial da Specialty Coffee Association (SCA), café especial é todo aquele que atinge, no mínimo, 80 pontos na escala de pontuação da metodologia (que vai até 100). Seis amostras mineiras foram selecionadas por provadores qualificados, que atribuíram notas de 83,17 a 87,67, um indicativo da alta qualidade dos cafés apresentados. Participaram da atividade avaliadores que estão em busca de uma certificação mundial dada a profissionais de classificação e degustação de cafés.

Para a classificação dos cafés são avaliados os seguintes atributos: fragrância, aroma, ausência de defeitos, doçura, sabor, acidez, corpo, finalização, harmonia, uniformidade (cada xícara representa estatisticamente 20% do lote avaliado). Outro critério é o conceito final (impressão geral sobre o café, atribuída pelo classificador). Esta é a única etapa subjetiva na seleção das amostras.

Juliana Simões e Lara Aliano, Agência MOC