Bem Diverso realiza seminário para falar sobre Igualdade de Gênero nas cadeias produtivas da sociobiodiversidade

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Na tarde da terça-feira (24), um grupo de mulheres se reuniu virtualmente para conversar sobre seu trabalho no meio rural e nas organizações de produtos da sociobiodiversidade. O Seminário Virtual “Mulheres, Extrativismo e Sociobiodiversidade - Um enfoque sobre a igualdade de gênero” foi transmitido pela página do Projeto Embrapa Bem Diverso no Facebook e alcançou mais de 1.100 pessoas.

O encontro foi conduzido pela analista de programa de Gênero e Raça, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no Brasil, Ismália Afonso, e contou com a presença da geraizeira da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Nascentes Geraizeiras e da Cooperativa de Agricultores Familiares Extrativistas de Água Boa II (Coopab), Neusita Agostinho; da presidente da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (Coopercuc), Denise Cardoso;  da representante do Centro de Referência em Manejo de Açaizais no Marajó (Manejaí), Sônia de Almeida; e a pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amapá, Ana Euler.

A pesquisadora da Embrapa e ponto focal do Bem Diverso, Ana Euler, contou um pouco sobre o funcionamento do Projeto e a participação das mulheres nos processos de restauração, proteção e preservação da biodiversidade brasileira.

Ana Euler falou sobre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e destacou que entre eles, “acabar com a pobreza; acabar com a fome; e alcançar igualdade de gênero” são essenciais para empoderar todas as mulheres e meninas dos territórios onde o Bem Diverso atua. “Isso é particularmente importante dada a participação das mulheres no trabalho agrícola em toda América Latina e no Brasil”, afirmou a pesquisadora.

Segundo ela, o crescimento do espaço social da mulher no campo aumentou. Em 2006, as mulheres agricultoras representavam cerca de 12% dos empreendedores rurais e no último censo agropecuário, em 2017, chegaram a 18% do total. “650 mil propriedades no Brasil são geridas exclusivamente por mulheres e em outras 1.7 milhões de unidades as mulheres são parceiras perfazendo 34% dos 5 milhões de estabelecimentos rurais no Brasil”, disse Ana Euler.

E um aspecto bem interessante é que a maioria dessas mulheres representam uma massa trabalhadora bem jovem, com idade entre 24 e 45 anos. Mas a pesquisadora ponderou que embora as mulheres sejam cada vez mais responsáveis pelo trabalho agrícola, elas enfrentam uma infinidade de obstáculos que as diferem de seus colegas homens, pois os papéis de gênero são baseados em normas sociais onde tarefas produtivas são consideradas trabalhos masculinos e as demais são trabalhos femininos. “As mulheres são tradicionalmente vistas como mães esposas e pouco como tomadoras de decisão”, pontuou a pesquisadora da Embrapa.

Para ela, as mulheres enfrentam normas sociais e culturais que limitam a sua participação nas cadeias de valor. Resultados  que levam as mulheres, frequentemente, a enfrentar mais restrições financeiras e ter maior probabilidade de permanecer na pobreza.

Em contraponto, as representantes das cooperativas e centros de manejo, que ajudam a gerar renda para suas comunidades, contaram o que está sendo feito para mudar essa realidade. A presidente da Coopercuc, Denise Cardoso, compartilhou as experiências das mulheres do semiárido baiano, no bioma Caatinga, com o extrativismo do Umbu e do Maracujá Nativo. A instituição, que começou 2004, atualmente é formada por 271 cooperados, destes 70% são mulheres que preparam doces e geleias à base de frutas nativas da região.

Em sua fala, Denise Cardoso enfatizou que o trabalho da cooperativa bebe na fonte dos saberes tradicionais das mulheres que há anos criaram uma forma de conservar as frutas para o consumo fora da época de colheita. Ela contou que há anos, as elas fazem um preparo artesanal concentrado do Umbu que mesmo sem açúcar ou conservantes é possível ser guardado por cerca de dois anos.

“É um produto historicamente feito pelas mulheres e muito importante para região. Foi observando essas potencialidades que eles decidimos criar a Coopecuc”, contou. Denise Cardoso disse que na cooperativa, as mulheres são as maiores responsáveis pelo trabalho de coleta e beneficiamento das frutas para o preparo dos produtos que hoje são vendidos internacionalmente, e geram renda para a região.

A moradora da RDS Nascentes Geraizeiras e membro da Coopab, Neusita Agostinho, dividiu experiências sobre o processo de criação da reserva, no bioma Cerrado, e relembrou um momento emblemático. Em 2011, as mulheres da comunidade foram as responsáveis por parar as máquinas que trabalharam no desmatamento de uma área de colheita. 

As mulheres, em manifestação, foram pra frente das máquinas para impedir que o desmatamento avançassem. O acontecimento ficou marcado como a “1ª Parada de Máquinas da Comunidade Água Boa II”.

“Não conseguimos impedir todo o desmatamento, pois quando percebemos ele já tinham trabalhado nisso. Mas pela primeira vez conseguimos fazer com que os empresários voltassem atrás”, celebrou Neusita.

A parceira do Projeto Embrapa Bem Diverso na região do Marajó, do bioma Amazônia, Sônia de Almeida, apresentou o trabalho do Centro de Manejo de Açaís Nativo do Marajó, o Manejaí, e como é a participação das mulheres ribeirinhas nesse trabalho.

Sônia explicou que o Centro trouxe muitos benefícios para a comunidade local. “O Manejaí veio com a missão de melhorar a vida das comunidades tradicionais, dar qualidade de vida e gerar renda para que essas pessoas permaneçam na comunidade”, contou ao explicar que antes, a baixa movimentação da economia na região fazia com que as pessoas nativas migrassem para outros locais.

O Seminário Virtual “Mulheres, Extrativismo e Sociobiodiversidade - Um enfoque sobre a igualdade de gênero” aconteceu às vésperas do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres (25/11), criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) pelo fim de todas as formas de violência contra as mulheres e meninas nas esferas públicas e privadas. Atualmente, a violência impacta a vida de uma a cada três mulheres e meninas pelo mundo.

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